Tecnologia
Por muito tempo, falar em óculos inteligentes parecia coisa de filme ou uma tecnologia tentando resolver um problema que ninguém tinha. Os primeiros projetos chamavam atenção, mas estavam longe de se tornar algo que uma pessoa comum gostaria de usar todos os dias. Esse cenário começa a mudar. Ray-Ban e Oakley já possuem produtos inteligentes no mercado, enquanto marcas como Warby Parker e Gentle Monster estão trabalhando com Google e Samsung em novos modelos integrados ao Gemini. Quando empresas conhecidas por moda, design e óculos começam a se aproximar das gigantes de tecnologia, temos um sinal importante: a próxima grande plataforma digital talvez não precise ficar no nosso bolso.
O que torna essa nova geração interessante não é simplesmente colocar uma câmera em uma armação. A combinação de inteligência artificial, microfones, áudio e sensores começa a criar experiências que podem realmente fazer sentido no cotidiano. Imagine caminhar por uma cidade desconhecida e receber orientações sem precisar olhar constantemente para o celular. Você pode registrar aquilo que está vendo, ouvir música, atender uma chamada ou perguntar à inteligência artificial sobre um prédio, produto ou lugar à sua frente. Em vez de abrir um aplicativo, digitar uma pergunta e enviar uma foto, a tecnologia começa a entender o contexto daquilo que você está vendo.
Uma das possibilidades que mais chama minha atenção é a tradução. Para quem vive fora do seu país de origem, viaja ou trabalha com pessoas de diferentes nacionalidades, a barreira do idioma faz parte da rotina. Imagine conversar com alguém em inglês e receber auxílio da tecnologia durante a própria conversa, sem precisar interrompê-la para pegar o celular e abrir um tradutor. Para mim, esse é um ótimo exemplo da diferença entre uma tecnologia que apenas impressiona e uma tecnologia que realmente pode melhorar a vida das pessoas. Para um imigrante, algo assim pode significar mais independência, confiança e autonomia.
Talvez estejamos também presenciando uma mudança na nossa relação com as telas. Durante anos fizemos exatamente o movimento contrário: colocamos cada vez mais coisas dentro do smartphone. Câmera, GPS, banco, música, mensagens, trabalho, compras e, mais recentemente, inteligência artificial passaram a disputar nossa atenção em uma pequena tela. Os óculos inteligentes apresentam uma possibilidade diferente: algumas dessas experiências podem começar a sair do telefone e acompanhar naturalmente aquilo que estamos fazendo. O celular provavelmente continuará sendo extremamente importante, mas talvez precisemos tirá-lo do bolso com menos frequência.
Naturalmente, existe outro lado dessa evolução. Quando colocamos câmeras, microfones e inteligência artificial em um dispositivo que pode permanecer no rosto durante horas, surgem questões importantes sobre privacidade e consentimento. Se alguém estiver usando óculos inteligentes próximo de nós, como saber quando uma imagem está sendo registrada? Quais informações são processadas pela inteligência artificial? Onde esses dados ficam armazenados? Quem poderá acessá-los? A tecnologia pode avançar rapidamente, mas a confiança das pessoas será determinante para que esses dispositivos realmente façam parte da vida cotidiana.
Também existe uma diferença importante em relação às tentativas anteriores de popularizar esse tipo de produto: agora tecnologia e moda parecem estar caminhando juntas. Para usar um dispositivo no rosto todos os dias, ele não pode apenas funcionar bem; precisa ser confortável e, principalmente, parecer um óculos que a pessoa realmente queira usar. A entrada de marcas tradicionais nesse mercado pode ser tão importante quanto os avanços da própria inteligência artificial. O consumidor não quer necessariamente parecer que está usando um computador no rosto. Ele quer usar seus óculos e, quando precisar, ter tecnologia disponível.
Depois de muitos anos trabalhando com tecnologia, aprendi a olhar para inovação tentando ir além da novidade do momento. Um produto pode ter inteligência artificial, sensores, câmeras e dezenas de funcionalidades e ainda assim não transformar a vida de ninguém. Tecnologia só faz sentido quando melhora a vida das pessoas. É por isso que considero os óculos inteligentes particularmente interessantes: eles começam a apresentar aplicações que uma pessoa comum consegue imaginar utilizando no seu dia a dia.
Não acredito que estejamos prestes a abandonar nossos smartphones. Pelo menos não agora. Mas talvez essa nem seja a pergunta certa. A transformação mais interessante pode acontecer de maneira muito mais silenciosa: primeiro deixamos de pegar o celular para ouvir música, depois para receber uma orientação, fazer uma pergunta, traduzir uma conversa ou registrar um momento. Aos poucos, aquela tela que hoje concentra praticamente toda a nossa vida digital pode deixar de ser nossa principal porta de entrada para a tecnologia.
Por isso, quando olho para os óculos inteligentes, minha pergunta não é “quando eles vão substituir o smartphone?”.
A pergunta que considero muito mais interessante é:
quanto tempo falta para precisarmos tirar cada vez menos o celular do bolso?

